Depois da guerra na Ucrânia, a União Europeia (UE) pôs em marcha o plano REPowerEU para romper com sua antiga dependência energética da Rússia. Mas, segundo analistas, a Europa trocou uma dependência por outra, ainda mais profunda e estrutural: a dependência de “metais críticos” para energia renovável, semicondutores, tecnologia e indústrias estratégicas.  A UE reduziu drasticamente as importações de gás russo desde 2022, através de diversificação de fornecedores, novos terminais de GNL e expansão da energia renovável.  Contudo, a “independência energética” trouxe à tona outra vulnerabilidade: a necessidade massiva por metais como lítio, cobalto, terras raras, gálio, germânio, essenciais para baterias, semicondutores, turbinas eólicas, painéis solares, veículos elétricos, e até defesa e tecnologia de ponta.  A estrutura produtiva europeia enfraqueceu nas últimas décadas: não há refinações novas desde os anos 1990, e muitos complexos foram fechados ou reduzidos. Isso limita a capacidade interna de processar matérias-primas críticas.  A Europa depende quase totalmente de importações para obter os metais que alimentam sua ambição verde e tecnológica. Dados recentes indicam que a UE produz apenas percentuais ínfimos, por exemplo, cerca de 0,1% de lítio, 0,5% de cobalto, 1% de níquel, de suas necessidades.  Com a expectativa de que a demanda por energia limpa, mobilidade elétrica e digitalização se multiplique entre 6 e 15 vezes até 2050, a pressão sobre essas cadeias de suprimento vai se intensificar.  A consequência: embora a Europa tenha superado uma dependência geopolítica direta (gás russo), ela agora se vê vulnerável a choques de oferta global, monopólios de países exportadores e à competição por recursos escassos. Para países em África ou outros mercados em desenvolvimento, como Moçambique, a nova dependência europeia por metais críticos pode abrir janelas de oportunidade: fornecedores de matérias-primas, minerais e matérias-primas estratégicas podem ver a demanda global aumentar. Mas também há risco: o controle global desses recursos pode ficar concentrado em poucos países ou blocos (como a China), o que coloca em destaque a necessidade de diversificação, sustentabilidade e transparência nas cadeias de extração. A transição para uma economia baixa-carbono ou digital exige não apenas energia renovável, mas também acesso a minerais que muitas vezes vêm de fora da Europa, o que muda a geopolítica dos recursos minerais para um cenário global. A Europa conseguiu, em poucos anos, abandonar o gás russo, uma velha dependência energética, graças à combinação de políticas de diversificação, transição energética e ajustes no mix energético. Mas a vitória vem com um preço: uma nova dependência, ainda mais complexa e estratégica. Sem acesso confiável a metais críticos, a transição verde, a indústria tecnológica e mesmo a soberania industrial da UE ficam ameaçadas. Para o resto do mundo, isso não é apenas um problema europeu, é um novo mapa de oportunidades e riscos, que exige planejamento, diversificação e visão de longo prazo. Fonte: Xataka Brasil